Quarta-feira, 3 de Agosto de 2005

A Festa

O conceito de «festa» que hoje conhecemos funda-se numa tradição milenar iniciada nos primórdios da raça humana.

De facto, desde a época neandertal que conhecemos aquilo a que podemos chamar de antepassado do conceito «festa». As pinturas rupestres encontradas nas paredes de várias grutas espalhadas por esse mundo fora ilustram , na sua maioria, cenas de caça num alusão à celebração realizada antes de o grupo partir para a caça e após esse mesmo grupo voltar.

No entanto, podemos situar o nascimento do conceito de festa propriamente dito na cultura grega, muitos contrapõem esta localização do nascimento concreto do conceito na civilização egípcia. Contudo, e recorrendo às Teorias do Drama e do Espectáculo, facilmente chegamos à conclusão de que a festa egípcia nunca atingiu os chamados níveis de espectacularidade que festas como os Olímpicos ou os cultos festivos aos deuses gregos atingiram. De facto, foi a inovação grega de «espectáculos de entretenimento», e não apenas os cultos religiosos, que permitiram o nascimento de «a festa».

Quando falamos de espectacularidade aliada à problemática da localização do nascimento da festa, falamos de teorias antropológicas bastante fortes, aliadas às teorias do drama e do espectáculo, que ajudaram a enraizar a noção e a tradição festivas na nossa cultura.

Saltemos agora um pouco no tempo, ou seja, regressemos à nossa condição de agentes da pós-modernidade.

Na pós-modernidade em que vivemos, onde a cultura do light e do descartável continua a ser exaltada, onde os prazeres passageiros são uma realidade, o culto da festa surge-nos quase como antítese a toda esta exaltação do passageiro. Aliás, por estar antropológica e sociologicamente enraizada na nossa cultura, a festa continua a subsistir.

Falo agora um pouco das Festas em Honra do Sr. Jesus dos Aflitos em Vila Chã de Ourique. Como anteriormente referi, a festa continua a subsistir, para além de todo o clima pós-moderno de renovação e inovação. Contudo, estes festejos parecem, para além de resistirem, fazerem frente à pós-modernidade. A falta de inovação destes festejos faz com que, ano após ano, se verifique um decréscimo de visitantes que poderia ser colmatado se as diferentes Comissões de Festas decidissem, elas próprias, inovar. E quando falo em inovar não falo só em termos materiais, uma vez que não se pode retirar o mérito de toda a reconversão a que o campus das festas foi sujeito. Falo de uma reconversão em termos ideológicos, em termos de uma reestruturação dos paradigmas que, ao longo dos anos, têm orientado a forma de «fazer e programar» a festa. Pessoalmente, o meu ideal de Comissão de Festas, a comissão que anualmente organiza os festejos e que também anualmente muda, é um pouco diferente. Não havendo vestígios de continuidade de trabalho, todos os anos é encetado um processo produtivo a partir do ponto zero, o que leva, na maioria dos casos e dos exemplos que a sociedade portuguesa nos dá, a uma ineficácia do trabalho final apresentado. Acho premente que uma ou duas pessoas, no máximo, da comissão cessante transitarem para a comissão seguinte, de forma a serem colmatadas algumas contingências, nomeadamente no que concerne ao início dos trabalhos.

Para além da questão «Comissão», a aposta na cultura tem estado, a meu ver, , muito descurada. Quando falo em cultura não a reduzo apenas às mostras/montras/stands que os vários grupos culturais e etnográficos todos os anos apresentam no recinto. Falo em ir mais longe, em ousar. Ousar chamar à festa o teatro, a performance, a instalação. Chamar à festa as denominadas «novas artes do espectáculo» que começam a ter uma grande visibilidade em Portugal. Uma festa não tem de se fechar na sua casula, não tem que conter única e exclusivamente o que se passa na sua terra. A festa tem de se abrir, também, ao de que melhor Portugal tem e produz em termos culturais. É claro que este acto de ousadia não deveria ser infundado, pois não nos devemos esquecer das raízes antropológicas e sociológicas da nossa festa. Por outras palavras, defendo um equilíbrio entre tradição e inovação, um equilíbrio que decerto seruia muito mais benéfico quer para o próprio programa festivo, pois preencheria alguns espaços vazios, evitaria repetições programáticas e, caso a aposta fosse realmente boa, poderia começar a dinamizar pessoas para o recinto dos festejos em horas em que este se encontra mais vazio; como para a população exterior a Vila Chã de Ourique que visita os festejos, pois teriam uma panóplia de eventos a decorrer no recinto, o que dinamizaria não só o espaço, como também atrairia mais pessoas, mais visitantes, dando uma dinâmica e movimento ao local, dinâmica e movimento estes que se demonstram urgentes e necessários, pois verifica-se uma morte das festas não em termos de as pessoas fazerem algo, mas uma morte das festas causada pela falta de dinâmica de inovação e pela exagerada repetição que, ano após ano, se acentua.

Não quero estar a encarnar o papel de maldizente, apenas constato aquilo que vi nos festejos deste ano, em continua comparação com os de anos anteriores.

Se me permitem fazer uma comparação, à guisa de conclusão, o Cartaxo está no bom caminho. A Festa do Vinho todos os anos inova um pouco. Contudo, falta-lhe ainda explorar algumas áreas que poderiam servir de atractivo ao público.

Concluo dizendo que eu, no que me for possível e no que me for proposto, estarei disponível para colaborar no que for necessário, dentro das minhas habilitações práticas.

retalhado por Jorge Durões às 01:27
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