Domingo, 25 de Junho de 2006

Andamento...

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Quantas vezes nos sentamos, pensamos que a nossa presença basta para que alguém se sinta feliz, mesmo que esse alguém esteja a 10 metros de nós com amigos, e, no fim, chegamos à conclusão que não passamos de uns estúpidos com um sentido de inconveniência bastante grande.
O facto da nossa presença, pensamos, é suficiente. Mas esquecemo-nos que, para a outra pessoa, pode não ser suficiente a presença no mesmo espaço. Torna-se mais importante a presença lado a lado, apoiando-se um ao outro.
A capacidade que cada um de nós tem para reagir, a quente, a certas situações não é igual. Contudo, não deve ser recriminada. Deve, por outro lado, ser esclarecida na esperança de que compreendam o porquê de se ter feito determinada acção ou ter tomado determinada decisão naquele momento específico.
Infelizmente, reajo mal a estímulos (leia-se estímulos como, por exemplo, um determinado olhar, determinadas palavras ou pequenas acções que são lançadas na nossa direcção) de pessoas que não conheço minimamente, das quais apenas tenho uma ideia geral que apreendo por osmose. Ideias pré-feitas sobre uma pessoa que são assimiladas através de histórias e caracterizações feitas por alguém que conheça bem a pessoa. Mas sei que as minhas reacções são, muitas vezes, não ponderadas e muito imprudentes. O chamado reagir a quente. Um reagir a quente que eu pensava já ter conseguido esfriar mas que, dia após dia, chego à conclusão que está ainda muito presente dentro de mim como algo que, sem que eu, muitas das vezes, dê conta que acontece.
Especifiquemos. Imaginemos que alguém que acabaram de conhecer, pessoa da qual vocês conhecem um pouco do passado, vos lança um olhar, ou melhor, vos parece que ele vos lança um olhar que vos gela as veias. No momento em que vos parece que ele vos lança esse olhar, sentem um calafrio a percorrer o vosso corpo. Qual seria a reacção ou reacções possíveis?
E se essa situação ocorrer num local que vocês não conhecem de todo, onde nunca estiveram, onde não se sentem integrados?
A minha reacção foi, ao mesmo tempo, incoerente e protectora (peço desculpa, mas esta palavra não deveria ser empregue, mas não consigo arranjar outra melhor; protectora no sentido de deixar a pessoa com quem vocês estão divertir-se com os seus amigos com quem não estava à imenso tempo). Estando com alguém de quem gosto, num sitio que é o seu ambiente natural, em que essa pessoa está com os seus amigos, a ouvir aquilo que gosta, como gosta.
A minha reacção foi, estupidamente, vir tomar ar ao jardim e ai ficar por não me conseguir sentir bem no interior do bar. Sei que foi uma reacção tomada de cabeça, não digo quente, mas a escaldar. Sei que, depois, causei sofrimento a algumas pessoas que, para alem de me terem compreendido, teriam preferido que eu ficasse com elas pois seria mais fácil ultrapassar esse momento. A minha resposta é «não sei». As reacções são isso mesmo, respostas a impulsos. E aquela, naquele momento, foi uma resposta pura, dura, e feita de cabeça completamente no ar. Do estilo «não me estou a sentir aqui bem, o melhor, se calhar, é ir até lá fora apanhar ar e beber». Beber porque a bebida ajuda a clarificar as coisas, a dissipar a nuvem de neblina que, muitas das vezes, paira sobre os assuntos.
Se me disserem que não fiz um esforço, um sacrifico, para estar naquele local, eu respondo que é completamente mentira. Para mim, ficar lá foi um sacrifício que se foi, tornando, a pouco e pouco, num prazer. Porque, infelizmente para mim, demoro tempo a assimilar as coisas, os ambientes, as pessoas. Para mim, não fazer sacrifício algum teria sido voltar as costas e vir-me embora. Contudo, não o fiz. Fui-me embora para o jardim pois precisava do meu tempo e do meu pequeno espaço para esfriar a cabeça e conseguir voltar a mim. E, mais uma vez, como me é característico, consegui, dentro de algo que me é completamente estranho, criar um espaço a que pude chamar meu. Eu sei que levei tempo demais (uma hora e pouco) a conseguir voltar a mim. Mas demorei esse tempo porque precisei, em primeira instância, de criar empatia e uma relação com o espaço/ambiente em si. E quem me conhece sabe bastante bem que eu preciso de me tentar, por mais integrado ou não que esteja num grupo, integrar no espaço. Tenho apenas pena se, porventura, alguém não conseguiu, na noite passada, entender o porquê de me ter acontecido isto. Mas esta apropriação do espaço já faz parte de um processo estúpido que tenho enraizado em mim.
Quanto ao assunto do olhar, as coisas acalmaram. Acalmaram porque consegui integrar-me no espaço. Acalmaram porque também tive algum apoio para me conseguir integrar no espaço. E, se porventura houve algum mal entendido da minha parte, esse foi mais que esclarecido para mim.

25 de junho, em andamento, num comboio, por esta estrada

retalhado por Jorge Durões às 22:29
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2 comentários:
De curioso a 22 de Julho de 2006 às 11:28
Bom fim-de-semana.


De Johny a 25 de Junho de 2006 às 22:42
Caríssimo Amigo
o teu texto, sincero como tu, com os teus barroquismos momentâneos que mais não são do que a parafernália que envolve todas as dores que tens e sentes, fez-me lembrar uma frase que saiu da minha cabeça quando, há uns anos, fui morar para uma cidade fora de Portugal que, após meses de custo, passei a considerar minha: para que sintamos um lugar como nosso temos inevitavelmente que regá-lo com as nossas lágrimas.
Discretamente, até bem secas, chorei-as muitas nas mesmas circunstâncias.
um abraço, sempre teu
J


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